quinta-feira, 3 de setembro de 2020

Sobre o trauma colonial _ Parte 2

(...continuação)

A primeira informação que preciso registrar é que o projeto inicial do museu, feito em 2010, integrou as ações de comemoração (isso mesmo, comemoração) do quinto centenário da morte do infante D. Henrique, ocorrida em 13 de novembro de . Data em que se comemora a “dimensão nacional da figura ligada à epopeia dos descobrimentos marítimos”, segundo o jornal Diário de Notícias. Ou seja, senhoras e senhores, vamos construir um museu sobre escravidão, com um discurso nacionalista, pra comemorar as conquistas além mar do nosso grande infante D. Henrique. Já começou errado né? Em segundo lugar, eu não consigo nem explicar o que eu senti quando descobri que o museu, com a abordagem atual sobre o tema, recebeu o título de Centro Internacional de Memória Viva da Dignidade Humana do Observatório Internacional dos Direitos Humanos, título este concedido a espaços que, apesar da sua história, foram convertidos em centros de cultura e de disseminação da paz. Leia-se: promovem apagamento e silenciamento, ou pior, enaltecimento dos usos nefastos a que serviram por bastante tempo. Ressalto que não conheço outros espaços que tenha recebido o mesmo título, mas tirando por esse que conheci não tenho muitas esperanças. Porém preciso ressaltar que, dos 45 dias que passei no Algarve, com duas breves passagens pra Lisboa e uma ida rápida a Vila Franca de Xira (concílio um pouco acima de Lisboa), essas pouco mais de 30 horas que passei em Lagos, foi o período onde mais vi pessoas pretas em Portugal. Percebi (e depois constatei com pesquisa) que o tal Mercado de Escravos é um espaço bastante procurados por africanos do continente ou em diáspora. Vi muitas famílias pretas com crianças vendo e percebendo a forma como a história estava sendo contada. Vi até alguns rostos que aparentavam contentamento, enquanto outros traziam, assim como os meus, o desconforto. Mas, assim como eu, vi naquelas pessoas o desejo intenso de conhecer um pouco mais das suas histórias, correndo atrás de qualquer peça possível para a montagem desse enorme quebra cabeças. Saber que tudo que diz respeito à nossa ancestralidade é mutilado, deturpado, negado, algumas vezes romantizado, nos tira da condição de humanidade e nos coloca no lugar do exótico distante. Nos obriga a garimpar em meio a narrativas repletas de exotização ou rejeição, resquícios de quem verdadeiramente fomos. Com todos os ônus e bônus inerentes à humanidade. E foi isso que busquei naquele lugar. Que os irmãos e irmãs buscaram e buscam. Como eu disse acima, não faço ideia se esse texto fez sentido, se as palavras se organizaram de alguma forma decifrável. Porém, como também disse, não consigo ainda descrever o que senti. O que sinto. Espero um dia poder rever os registros e escrever algo sob a égide da minha formação. De, a partir da reflexão museológica, explicar como não faz o menor sentido humano aquele tipo de abordagem. Até porque, já passou da hora de termos uma museologia REALMENTE comprometida com as feridas da humanidade. Já passou da hora de acharmos que existe apenas uma gota de sangue em cada museu e admitir que estão todos, na verdade, mergulhados até o pescoço.















Sobre um trauma colonial _ Parte 1

No final de 2018 eu vivi uma experiência sobre a qual eu nunca falei. 

Na verdade falei muito pouco sobre e o que falei foi bastante superficial. 

Naquele ano eu fui até Portugal por conta de uma residência cultural a ser feita num museu de um pequeno concílio no sul do país, uma região chamada Algarve. Meu destino e estadia foi São Brás de Aportel e mentiria se dissesse que não vivi momentos riquíssimos nesse lugar. Sobretudo por estar sendo recebida por uma grande e querida amiga que na ocasião morava por lá.


Porém confesso que desde o momento em que a viagem deixou de ser um desejo e passou a ser um plano, a ideia de minha primeira viagem internacional ser justamente para a terra do colonizador gerou profundo desconforto. A viagem que foi custeada com recursos do Fundo de Cultura a partir do edital de mobilidade demandou alguma etapas de preparação, entre elas uma reunião com todos os contemplados daquela edição. O desconforto só aumentou quando na reunião vi que entre os diversos destinos estavam Ilha do Sal, Luanda, Maputo e Lagos da Nigéria. Todas cidades do continente africano. E eu, indo pra terra do colonizador.


Ressalto aqui Lagos da Nigéria pq até então era a única Lagos que eu conhecia.


E, uma vez no Algarve, eu, mulher preta (embora aqui afro ameríndia, na Europa, eu sou apenas preta) não fui poupada de questionamentos e comentários referentes ao meu fenótipo, naquele momento ainda mais reforçado pelas tranças de fibra que utilizava nos cabelos. E, entre esses comentários, alguém, com muita gentileza e boa vontade, comentou que eu poderia me interessar por visitar Lagos, um dos concílios do Algarve, esse bem próximo ao mar, pois lá tinha um museu interessantíssimo (nas palavras da pessoa que me indicou) que se instalou no edifício do antigo mercado de escravos. Eu tinha que conhecer.


Apesar de a circulação entre o Algarve estar entre os objetivos da viagem e Lagos possuir um dos Centros de Ciência Viva, objeto de grande interesse da minha pesquisa, foi bem difícil encaixar a ida até lá no roteiro. Porém, talvez não pelos motivos imaginados por quem me indicou, eu realmente me interessei em saber que lugar era aquele, musealizado a partir do pior episódio de massacre humano já visto neste planeta.


Então, numa manhã de sábado, mesmo debaixo de um temporal e sem companhia, saí de São Brás em direção a Faro para de lá pegar um trem que me deixasse em Lagos. se locomover pelo Algarve sem um carro próprio não é lá tarefa das mais fáceis, mas ainda assim fui. Passaria a noite lá para que fosse possível visitar o CCV e ter tempo suficiente de explorar o tal Mercado de Escravos, sim, o espaço museológico se chama exatamente desse jeito.


Não vou me ater às outras experiências vividas nesse lugar. Nem vou comentar sobre o fato de ter assistido A Star is Born, sozinha, numa noite de chuva intensa, num cinema minúsculo, com legenda de português lusitano que chama banheiro de casa de banho. Não. Vou me ater ao tema principal. 


Ainda hoje, quase dois anos depois, tenho muita dificuldade de nomear o que senti naquele lugar. Talvez a partir de agora o texto fique confuso e boa parte do que eu narre tenha mais a ver com as leituras e sensações posteriores a esse episódio do que com o dia da visita de fato. Por exemplo, só depois de ter lido Memórias da Plantação da Grada Kilomba é que consigo perceber que a angústia e o nó no peito que vivenciei naquele dia são sequelas do trauma colonial a que fomos/somos enquanto povo submetidos. E ali eu estava vivendo ‘apenas’ a parcela africana dele.


Estive no além mar. Mas, ao invés de conhecer o lugar onde os meus ancestrais foram capturados e onde viviam vidas dignas. Conheci primeiro o lugar onde foram feitos cativos, vendidos como coisas e embarcados em tumbeiros para o lugar onde hoje me encontro. Olhei para aquele mar e imaginei. Não, não consigo imaginar de novo. Dói.


A forma como os episódios cotidianos na escravidão foram/são narrados naquele lugar me tiraram ou me colocaram, não sei, num estado de torpor e incredulidade. Embora eu tenha vivido essa arrogância portuguesa de, ainda hoje, acreditar-se como grande civilizador de Pindorama, desde o primeiro momento em que pisei os pés naquela terra, ainda assim foi demais pra mim ver e ler essa soberba em cada etapa do discurso expositivo. 


Li cada legenda. Analisei minuciosamente cada imagem. Assisti atenta cada vídeo. Mais: registrei cada pedacinho da exposição. Me fiz a promessa de ver e rever e depois escrever sobre. Não consegui. Nunca mais consegui analisar as imagens. Hoje busquei algumas para compartilhar aqui.


Mas, mesmo sem conseguir reviver os detalhes do trauma daquele dia, me interessei por conhecer a história do prédio de onde, provavelmente, aconteceu a primeira partida de um navio tumbeiro ao brasil e também de onde saiu o maior número de negros e negras capturados com destino às terras brasileiras.


Tive acesso a muitas informações difíceis de digerir, porém a maior parte delas não é bem novidade dada aquela postura portuguesa que citei mais acima. Mas queria ressaltar duas.  (Continua...)