(...continuação)
A primeira informação que preciso registrar é que o projeto inicial do museu, feito em 2010, integrou as ações de comemoração (isso mesmo, comemoração) do quinto centenário da morte do infante D. Henrique, ocorrida em 13 de novembro de . Data em que se comemora a “dimensão nacional da figura ligada à epopeia dos descobrimentos marítimos”, segundo o jornal Diário de Notícias. Ou seja, senhoras e senhores, vamos construir um museu sobre escravidão, com um discurso nacionalista, pra comemorar as conquistas além mar do nosso grande infante D. Henrique. Já começou errado né? Em segundo lugar, eu não consigo nem explicar o que eu senti quando descobri que o museu, com a abordagem atual sobre o tema, recebeu o título de Centro Internacional de Memória Viva da Dignidade Humana do Observatório Internacional dos Direitos Humanos, título este concedido a espaços que, apesar da sua história, foram convertidos em centros de cultura e de disseminação da paz. Leia-se: promovem apagamento e silenciamento, ou pior, enaltecimento dos usos nefastos a que serviram por bastante tempo. Ressalto que não conheço outros espaços que tenha recebido o mesmo título, mas tirando por esse que conheci não tenho muitas esperanças. Porém preciso ressaltar que, dos 45 dias que passei no Algarve, com duas breves passagens pra Lisboa e uma ida rápida a Vila Franca de Xira (concílio um pouco acima de Lisboa), essas pouco mais de 30 horas que passei em Lagos, foi o período onde mais vi pessoas pretas em Portugal. Percebi (e depois constatei com pesquisa) que o tal Mercado de Escravos é um espaço bastante procurados por africanos do continente ou em diáspora. Vi muitas famílias pretas com crianças vendo e percebendo a forma como a história estava sendo contada. Vi até alguns rostos que aparentavam contentamento, enquanto outros traziam, assim como os meus, o desconforto. Mas, assim como eu, vi naquelas pessoas o desejo intenso de conhecer um pouco mais das suas histórias, correndo atrás de qualquer peça possível para a montagem desse enorme quebra cabeças. Saber que tudo que diz respeito à nossa ancestralidade é mutilado, deturpado, negado, algumas vezes romantizado, nos tira da condição de humanidade e nos coloca no lugar do exótico distante. Nos obriga a garimpar em meio a narrativas repletas de exotização ou rejeição, resquícios de quem verdadeiramente fomos. Com todos os ônus e bônus inerentes à humanidade. E foi isso que busquei naquele lugar. Que os irmãos e irmãs buscaram e buscam. Como eu disse acima, não faço ideia se esse texto fez sentido, se as palavras se organizaram de alguma forma decifrável. Porém, como também disse, não consigo ainda descrever o que senti. O que sinto. Espero um dia poder rever os registros e escrever algo sob a égide da minha formação. De, a partir da reflexão museológica, explicar como não faz o menor sentido humano aquele tipo de abordagem. Até porque, já passou da hora de termos uma museologia REALMENTE comprometida com as feridas da humanidade. Já passou da hora de acharmos que existe apenas uma gota de sangue em cada museu e admitir que estão todos, na verdade, mergulhados até o pescoço.









