No final de 2018 eu vivi uma experiência sobre a qual eu nunca falei.
Na verdade falei muito pouco sobre e o que falei foi bastante superficial.
Naquele ano eu fui até Portugal por conta de uma residência cultural a ser feita num museu de um pequeno concílio no sul do país, uma região chamada Algarve. Meu destino e estadia foi São Brás de Aportel e mentiria se dissesse que não vivi momentos riquíssimos nesse lugar. Sobretudo por estar sendo recebida por uma grande e querida amiga que na ocasião morava por lá.
Porém confesso que desde o momento em que a viagem deixou de ser um desejo e passou a ser um plano, a ideia de minha primeira viagem internacional ser justamente para a terra do colonizador gerou profundo desconforto. A viagem que foi custeada com recursos do Fundo de Cultura a partir do edital de mobilidade demandou alguma etapas de preparação, entre elas uma reunião com todos os contemplados daquela edição. O desconforto só aumentou quando na reunião vi que entre os diversos destinos estavam Ilha do Sal, Luanda, Maputo e Lagos da Nigéria. Todas cidades do continente africano. E eu, indo pra terra do colonizador.
Ressalto aqui Lagos da Nigéria pq até então era a única Lagos que eu conhecia.
E, uma vez no Algarve, eu, mulher preta (embora aqui afro ameríndia, na Europa, eu sou apenas preta) não fui poupada de questionamentos e comentários referentes ao meu fenótipo, naquele momento ainda mais reforçado pelas tranças de fibra que utilizava nos cabelos. E, entre esses comentários, alguém, com muita gentileza e boa vontade, comentou que eu poderia me interessar por visitar Lagos, um dos concílios do Algarve, esse bem próximo ao mar, pois lá tinha um museu interessantíssimo (nas palavras da pessoa que me indicou) que se instalou no edifício do antigo mercado de escravos. Eu tinha que conhecer.
Apesar de a circulação entre o Algarve estar entre os objetivos da viagem e Lagos possuir um dos Centros de Ciência Viva, objeto de grande interesse da minha pesquisa, foi bem difícil encaixar a ida até lá no roteiro. Porém, talvez não pelos motivos imaginados por quem me indicou, eu realmente me interessei em saber que lugar era aquele, musealizado a partir do pior episódio de massacre humano já visto neste planeta.
Então, numa manhã de sábado, mesmo debaixo de um temporal e sem companhia, saí de São Brás em direção a Faro para de lá pegar um trem que me deixasse em Lagos. se locomover pelo Algarve sem um carro próprio não é lá tarefa das mais fáceis, mas ainda assim fui. Passaria a noite lá para que fosse possível visitar o CCV e ter tempo suficiente de explorar o tal Mercado de Escravos, sim, o espaço museológico se chama exatamente desse jeito.
Não vou me ater às outras experiências vividas nesse lugar. Nem vou comentar sobre o fato de ter assistido A Star is Born, sozinha, numa noite de chuva intensa, num cinema minúsculo, com legenda de português lusitano que chama banheiro de casa de banho. Não. Vou me ater ao tema principal.
Ainda hoje, quase dois anos depois, tenho muita dificuldade de nomear o que senti naquele lugar. Talvez a partir de agora o texto fique confuso e boa parte do que eu narre tenha mais a ver com as leituras e sensações posteriores a esse episódio do que com o dia da visita de fato. Por exemplo, só depois de ter lido Memórias da Plantação da Grada Kilomba é que consigo perceber que a angústia e o nó no peito que vivenciei naquele dia são sequelas do trauma colonial a que fomos/somos enquanto povo submetidos. E ali eu estava vivendo ‘apenas’ a parcela africana dele.
Estive no além mar. Mas, ao invés de conhecer o lugar onde os meus ancestrais foram capturados e onde viviam vidas dignas. Conheci primeiro o lugar onde foram feitos cativos, vendidos como coisas e embarcados em tumbeiros para o lugar onde hoje me encontro. Olhei para aquele mar e imaginei. Não, não consigo imaginar de novo. Dói.
A forma como os episódios cotidianos na escravidão foram/são narrados naquele lugar me tiraram ou me colocaram, não sei, num estado de torpor e incredulidade. Embora eu tenha vivido essa arrogância portuguesa de, ainda hoje, acreditar-se como grande civilizador de Pindorama, desde o primeiro momento em que pisei os pés naquela terra, ainda assim foi demais pra mim ver e ler essa soberba em cada etapa do discurso expositivo.
Li cada legenda. Analisei minuciosamente cada imagem. Assisti atenta cada vídeo. Mais: registrei cada pedacinho da exposição. Me fiz a promessa de ver e rever e depois escrever sobre. Não consegui. Nunca mais consegui analisar as imagens. Hoje busquei algumas para compartilhar aqui.
Mas, mesmo sem conseguir reviver os detalhes do trauma daquele dia, me interessei por conhecer a história do prédio de onde, provavelmente, aconteceu a primeira partida de um navio tumbeiro ao brasil e também de onde saiu o maior número de negros e negras capturados com destino às terras brasileiras.
Tive acesso a muitas informações difíceis de digerir, porém a maior parte delas não é bem novidade dada aquela postura portuguesa que citei mais acima. Mas queria ressaltar duas. (Continua...)
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