sexta-feira, 27 de novembro de 2009

A melhor produção...


Semestre seguinte.
Disciplina: História da Arte Brasileira

Um pouco mais situada, o desafio era escrever
sobre um artista que eu não conhecesse.

Depois de uma pesquisa intensa e uma paixão adquirida,
concebi o que considero até hoje a minha melhor produção.
Espero que gostem...

O QUE DETERMINA A ARTE: O OLHAR DE QUEM VÊ OU A INTENÇÃO DE QUEM FAZ?

Arthur Bispo do Rosário, esquizofrênico-paranóide, como foi diagnosticado em sua estadia na Colônia Juliano Moreira, lugar onde passou aproximadamente 50 dos seus 80 anos de vida, é hoje considerado um dos maiores expoentes da arte nacional, tendo representado o Brasil em diversas exposições importantes e até mesmo na Bienal de Veneza, um dos maiores eventos da arte mundial.
Mas, aquilo que hoje é considerado arte contemporânea, por vezes comparada à obra de vanguardistas como Duchamp, foi nas palavras do próprio autor, uma missão de vida.
Aproximadamente aos 30 anos, Bispo, que nesse momento trabalhava como caseiro na residência da tradicional família carioca dos Leone, teve uma visão onde sete anjos o incumbiam de recriar o mundo para a vinda do Seu Senhor, e isto consistia em dar nova forma a objetos do cotidiano.
A partir de objetos comuns, Bispo criou uma variedade de objetos extraordinários. Latas, garrafas, colares, ferramentas se transformaram nas vitrines que hoje são classificadas como assemblages. Com a linha azul desfiada do uniforme da Colônia revestiu objetos dando um novo significado, bordou estandartes e faixas de misses pelas quais nutria uma veneração, chegando a acreditar que a extinção desse tipo de concurso era um presságio dos fins dos tempos. Preparou também com afinco um manto, que usaria no dia em que fosse se apresentar ao Seu Senhor, onde no avesso bordou o nome de todos aqueles que passaram pela sua vida e que ele considerou digno de ascender aos céus junto a ele.
De sua família pouco ou nada falou. Adotou a Virgem Maria como sua mãe e por vezes assumiu ele mesmo o papel de Jesus Cristo.
Durante toda a sua vida, Bispo protegeu a sua obra do que seria a falta de reconhecimento dos homens indignos. Fazendo do seu quarto na Colônia um ateliê improvisado, exigia a resposta correta quanto à cor de sua áurea a quem se candidatava a adentrar seu santuário e poucos foram os que obtiveram esse privilégio com Bispo em vida.
Bispo jamais dissociou a sua vida da sua obra, produziu com afinco, fazendo disso uma ação de sua rotina, ou como ele mesmo insistia em repetir, sendo essa a sua missão. Em muitos momentos a obra de Bispo lembra os movimentos de vanguarda que eclodiam pelo mundo, mas em nenhum momento eles o foram apresentados. A disposição de uma jante de bicicleta em cima de um pedestal é impossível de não ser comparada à “A Roda” de Duchamp, porém entre os tratamentos da Colônia, não estavam incluídas aulas sobre arte contemporânea.
O que mais espanta na obra de Bispo é que em nenhum momento ela foge da realidade como era de se esperar para alguém com a grave lesão psicológica diagnosticada, muito pelo contrário, ela grita o tempo todo os acontecimentos do mundo da época em que viveu. Em muitos momentos é possível perceber protestos contra suas indignações, características típicas da arte contemporânea.
Então como explicar que aquilo que poderia não passar de excentricidades de um louco é hoje considerada arte contemporânea? O contrário também não poderia acontecer, de um artista contemporâneo, que assim se entende, ter a sua obra interpretada como loucura? Pode-se dizer que a arte se determina por se só? Que ela mesma se faz reconhecer quando é ou se nega a ser quando não acha conveniente?
Almandrade, importante artista baiano e crítico de arte, diz que: “Estamos vivendo um momento em que qualquer experiência cultural, religiosa, sociológica, psicológica, etc., é incorporada ao campo da arte pelo reconhecimento de um curador ou de um outro profissional que detém algum poder sobre cultura, (tudo que não se sabe direito o que é, é arte contemporânea).” (ALMADRADE, 2009).
Vive-se num momento onde é conveniente determinar arte aquilo que é comercial, aquilo que tem potencial de movimentar o mercado de arte. Nesse momento a obra de Bispo surge como uma comunicação válida, como a arte que é entendida sem precisar ser explicada.
Do mesmo modo que nas sociedades indígenas onde aquilo que classificamos como arte é apenas mais uma função do dia a dia, para Bispo a sua obra estava associada ao dever, ao ter que fazer.
Se entendermos a arte como uma atividade humana de valores estéticos que sintetiza as suas emoções, sua história e seus sentimentos, podemos aceitar que a partir do momento que Bispo produz e consegue-se entender algo sobre ele próprio em sua obra, a arte acontece ainda que sem a intenção do seu realizador.


BIBLIOGRAFIA
BURROWES, Patrícia. O Universo segundo Arthur Bispo do Rosário. Rio de Janeiro: Editora FGV, 1999.
HIDALGO, Luciana. O Senhor do Labirinto. São Paulo: Editora Rocco, 1996.

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